Entrepartidas
Cada palavra cortava a carne e engasgava na boca, o choro era segurado a muito custo. Apenas a frase surgia: "esta é a última semana que fico em Londrina pelos próximos meses" já tremia a mão e o sorriso se perdia.
Cada cidade, cada morada, cada espaço onde firmava os pés foi um pouco lar, em Londrina três residências, uma em Prudente e Tupi, sempre Tupi. Uma vez lhe perguntaram, uma loira mulher de terno olhar azul com quem morara, como se sentia em relação àquele espaço e cidade em que vivia, sabendo-me de passagem por Prudente, assim como ela também estava. Disse que... aprendi a gostar dali, só consegui ficar se soubesse que o solo era firme, para enfrentar as tempestades da vida, me permitia encontrar-me nos objetos, familiarizar-me com os traçados das ruas, os humores dos porteiros, com as escadas do condomínio e com o sol queimando dentro do apartamento. Só ficava se me permitisse criar raízes.
E de lá um dia eu parti, com pequenas saudades e boas amizades.
No entanto, agora era diferente, nunca partira de tal forma como agora seria.
Todas as vezes que mudava me moviam muitos sonhos e planos, sofria de amores deixados, morria de saudades dos amigos, mas ia como o vento a toda força. Cada casa e cada cidade eu deixava para trás sem tantas tristezas; agradecia o acolhimento, a seiva farta, fortalecia-me com os amores vividos e rumava para outro destino, já não queria mais morar lá; outros eram os sentidos mesmo que planejasse voltar.
Agora não, agora era diferente. O sentido daquela morada da minha casa-chão se perdera - mas o amor e os sonhos ainda moram lá, mesmo que esvaziados de sentido. Acho que nunca partira antes querendo tanto ficar e nunca o ficar fez menos sentido. Por isso que a voz veio embargada e fingida. Ah, entrepartidas, minha alma está deveras perdida.
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