quinta-feira, 9 de abril de 2015

A lista dos desejos (quereres) para o futuro

Vi hoje uma amiga postando a sua já antiga lista de desejos – tudo aquilo que queria fazer e não tinha feito nos anos passados. Agradecia a si e ao mundo por ver-se realizando alguns daqueles desejos (ou muitos  - desejo meu para ela ).
Percebi-me revisitando as listas mentais que acumulei ao longo dos anos e ainda estavam lá, em aberto, fui retirando aquilo que já tinha conseguido (trabalhar em coisas diferentes, para conhecer mais “profissões”... ninguém disse que os desejos davam bons resultados, afinal já fui call Center...). Vi a mudança de sonhos – caminhos que se abrem e se fecham e tornam a abrir. E fiz a pergunta: quais são agora os meus quereres?
Disponho aqui a minha lista ao mundo, quiçá para me convencer de que não fugirei com tantos juízes a duvidar e me desafiar – será que disso, algo você fará?
Quero: dominar o espanhol como se fora língua materna, aquela cuja fluência se inscreve até na memória, fazer aulas de samba-rock, de massoterapia. Curso básico de como fazer trufas com recheio de diversos licores, conhecer o Machu Picchu, percorrer por meses a América Latina, ver as obras da Frida Kahlo, os murais do Diego Rivera e os “quintais” da casa de Neruda. Cozinhar salmão (com alcaparras), costela, ratatouille e torta de palmito até acertar o sabor.  Orar sempre.
Quebrar menos pratos (ops!), fazer algo que ajude a humanidade, voltar as aulas de canto e um dia conseguir cantar No, Je Ne Regrette Rien da Edith Piaf, pode ser em Paris, ou não... Mas um dia, sim, conhecer essa cidade, e também Roma e as ruas de Pompéia sob o agouro do Vesúvio e também o Parthenon e as ilhas gregas.  Ver e tatear as esculturas de Michelangelo, ah... a Pietá... (e depois descobrir como sair da prisão por ter feito isso). Prestar mestrado em história, escrever um livro, olha, conseguir fazer um bolo floresta negra também. Escovar os dentes cinco vezes ao dia (isso foi cópia dos quereres dessa amiga). Meditar. Teatro. Aulas de Pandeiro. Inglês e francês. Estudar literatura, arte, música, mais história e teoria. Reverenciar ao orixás, tatuar uma mandala, enraizar. Testar sucos de clorofila diferentes, vinho nas carnes e farinhas integrais nos bolos. 

           Estes são os de curto prazo, não riam. Tem outros para anos e anos a frente de hoje e de qualquer agora. Sei que um curso de gastronomia já resolvia metade dos problemas, mas não ligo de ser aos poucos a descoberta culinária e também aos poucos tudo isso. Não me importo se os sonhos mudarem, reescrevo  os quereres e os dias. Tampouco coloquei nessa lista os tropeços, nas calçadas, nos buracos e na vida (vários), ainda quero aprender muito, preciso tropeçar, sem esquecer dos amigos-família, não sei se sempre saberei me levantar (podem me ensinar?). Ah, um último querer, amar, sempre amar.   

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

 Entre reflexos de arco-íris, o menino crescia. As bolhas gigantes de sabão voavam por segundos, mas o riso se expandia e a todos juntos ele contagia. Eu ria.
Dizia que trovava e pedalava, eu digo que sonhava e encantava.
Havia uma tal exatidão - pra não dizer que não há contradição - ele sabia fazer cálculos e programação.
Seu pensamento era diverso, pra não dizer inverso.
Se era contra a opressão, o corpo via nele espaço de libertação, aberto ao tempo e ao vento como menino-homem nos quintais do mundo.
Se procurava um caminho no pontos de uma tela, tecno-tecnológica demanda de um saber, procura/abre/busca janelas para a resistência a maré do capital, seu dilema visceral.
E essa tal tecnologia, que resolveu unir um dia o menino com uma certa guria, o que será que viria?
Dias de preguiça? Apertos, abraços, toques e bons dias?
...
Sei que disso tudo ainda não surgiu grandes rimas, mas só o momento já é poesia.
Entrepartidas

          Cada palavra cortava a carne e engasgava na boca, o choro era segurado a muito custo. Apenas a frase surgia: "esta é a última semana que fico em Londrina pelos próximos meses" já tremia a mão e o sorriso se perdia.
          Cada cidade, cada morada, cada espaço onde firmava os pés foi um pouco lar, em Londrina três residências, uma em Prudente e Tupi, sempre Tupi. Uma vez lhe perguntaram, uma loira mulher de terno olhar azul com quem morara, como se sentia em relação àquele espaço e cidade em que vivia, sabendo-me de passagem por Prudente, assim como ela também estava. Disse que... aprendi a gostar dali, só consegui ficar se soubesse que o solo era firme, para enfrentar as tempestades da vida, me permitia encontrar-me nos objetos, familiarizar-me com os traçados das ruas, os humores dos porteiros, com as escadas do condomínio e com o sol queimando dentro do apartamento. Só ficava se me permitisse criar raízes.
        E de lá um dia eu parti, com pequenas saudades e boas amizades.
        No entanto, agora era diferente, nunca partira de tal forma como agora seria.
        Todas as vezes que mudava me moviam muitos sonhos e planos, sofria de amores deixados, morria de saudades dos amigos, mas ia como o vento a toda força. Cada casa e cada cidade eu deixava para trás sem tantas tristezas; agradecia o acolhimento, a seiva farta, fortalecia-me com os amores vividos e rumava para outro destino, já não queria mais morar lá; outros eram os sentidos mesmo que planejasse voltar.
        Agora não, agora era diferente. O sentido daquela morada da minha casa-chão se perdera - mas o amor e os sonhos ainda moram lá, mesmo que esvaziados de sentido. Acho que nunca partira antes querendo tanto ficar e nunca o ficar fez menos sentido. Por isso que a voz veio embargada e fingida.          Ah, entrepartidas, minha alma está deveras perdida.

Presença

             Em tudo ele era presença e a memória retomava de algum lugar que ainda não se tornara antigo, mas fora interrompido pelo ocaso abrupto trazido pelos incertos caminhos que todos trilhamos.
            Não era cheiro, pulsão ancestral ou corpo material, era ele mesmo como espírito-presença que marcava com seu eu todo o espaço que o circundava: sua casa-chão, com seus tocs, recortes, encaixes e brincadeiras com os materiais concretos. O subjetivo e o objetivo se fundiam ali, no quadro de colagens; no porta-chave de disco; no detalhe, no desencaixe.
           Mas retomava o que e para que? Se continuava o relato era, pois, como resistência àquela presença-ausência. E, sem ser possível esquecer a saudade, a retomada era só para dizer qual era o passo daquela caminhada, quais histórias estavam para ser recontadas, reconstruídas e num dia, no futuro, quais memórias seriam para sempre guardadas.