quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um tratado sobre miçangas

Um tratado sobre miçangas, crochês e sobre revolucionar os olhares

Vejo agora que nunca mostrei nenhum dos meus rabiscos anteriores. Escrevo, pois, algo para te lembrar dessa ariana fofa... rsrs (tudo bem, eu sei que isso de arianas fofas é uma falácia rsrs e peço desculpas se algumas palavras minhas de ontem tiverem sido demasiado duras).
E como nos contos de fadas se começa com um “ era uma vez...”
Naquilo que escrevo tende a começar com “o menino caminha...” (maldosos dirão que é falta de criatividade, eu digo que é “estilo” rsrs)
Bem, vamos lá... (Tá, vou contar outro segredo dos meus textos...dou um título poético, enrolo umas 56456421 linhas explicando o que farei e no último parágrafo eu escrevo algo dedicado a pessoa em questão. Isso é embromation mesmo, não se engane. Quando não saem só duas linhas pífias que nada tem a ver com o título.
Calma, não se irrite, continue lendo, já vamos chegar lá... nas duas linhas pífias.
O menino caminha pela cidade cinza-dória com suas linhas coloridas para enfeitar as palavras e iluminar os sorrisos da infância. Inequívoco contraste, se há verde na cidade, ele é de dólar. Pulmões a postos enfrentam a fumaça, sensibilidades da carne e da alma enfrentam os trilhos do metrô, do trem, os ônibus e os carros. Não há homens ali, só máquinas, há muito se fundiram, corpo vivo ao metal.
As dores aparecem, os alongamentos são esquecidos, até mesmo para um miçangueiro falta uma saudação ao sol.
Mas tem meninos que ainda insistem e num rompante se enraivecem e gritam revolução!! É porque sabem que outros meninos e meninas choram de fome. E este a que me refiro vira homem que chora também, pois a dor de uma ou de um, no seu olhar, me parece que também é sua dor.
E de repente, vai correndo trabalhar, o capital o espera ansioso e pagando mal. Só que não é só este que o espera... também esperam olhares, risos, cambalhotas e um pulsar daqueles que ainda não se fizeram totalmente impuros e surgem Julietas, Romeus, Montéquios, piratas e marinheiras... cancerianos, leoninos, taurinos e não mais que de repente, o homem-menino ressurge. Descobrimos então que os crochês são para remendar as tristezas e unir a infância à velhice (como jovens velhos que nos tornamos antes até dos marcos temporais), linha tênue que se rompe constantemente... e no crochê, os nós se fortalecem, se unem para fechar alguns dos buracos da trama da vida.
Acho que entendi o sentido (interpretação minha total rsrs), de ser comunista e miçangueiro. A revolta é latente e não pode ser esquecida, mas as miçangas, crochês e os sorrisos de 4 anos de idade ainda podem nos salvar e nos lembrar que ainda é preciso ter ternura (não com todo mundo, isso é impossível, acho que você me entendeu). Ao menos ás vezes.




Lílian Falcão de Araújo - 12-05-17. (Obser: texto escrito para um amigo querido)

sábado, 11 de novembro de 2017

Perguntei ao Lago se me reconhecia, já tinha deixado ali lágrimas e sorrisos e voltava para saudá-lo. 
Há quem queira que as águas do Igapó sejam águas de Elite, organizada e canalizada para o centro da cidade. Duvido que suas sinuosas curvas sejam as primeiras formadas no confronto com a terra (mãe). 
Elas, água e terra, são o feminino que nos formam e estão em constante confronto, invadindo-se,moldando-se e nos invadindo. Acredito que toda água purifica, do centro ou da periferia, menos aquela que o Homem poluiu demasiado que ela nem mais pôde se renovar; deixou de ser água, virou esgoto, óleo, detergente, sujeira, bactéria e poeira.
Mas o Lago Igapó não. Ela-ele ainda reluz o sol e alimenta seus entes (peixes, girinos, passarinhos, a terra, a grama, os insetos e tudo ao redor); geograficamente elitizado o Lago não é de ninguém, ele é nosso, ele é do mundo para purificar e limpar a alma. E como também acredito que todas as águas se conectam, elas - na forma de Lago - um dia banharão outros rebanhos até chegar a nossos ancestrais, nos conectando ao ciclo da vida.

Lílian Falcão - 21-11-2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Fale menino, fale,
Fale da poesia,
Da que lê, escreve ou cria.

Povoa o mundo
Com monstrinhos
E outras fantasmagorias...
E das lentes tortas ou ajustadas,
As cores da São Paulo transviada.

E nesses dias tão nublados,
Pra ti sugiro um pouco da funilaria
Dessa tal poesia.
Um  pouco do sintético Leminski
Para um bom dia.
Um  pouco de Pessoa,
Em suas várias cantorias,
Para todas as filosofias.
Baudelaire para se embriagar,
Hilda Hilst com Vinícius,
Para um dia se apaixonar
E quiçá...
Um Drummond para amadurar.

E reze.
Para que um dia a arte possa nos salvar.

sábado, 23 de janeiro de 2016



Onde nasce a saudade

Se não me engano, é lá no bairro das figueiras, onde, no primeiro chamado aparece correndo um menino que do alto dos seus quatro anos (sim, só quatro anos, aquela altura toda chama-se genética) vem com a frase que guia sua jovem vida nessa fase e que guiará sua semana ao lado dele: “vamos brincar de monstro? Eu sou um super monstro invisível...” e daí em diante você pode completar a frase com tudo que sua criatividade permitir, desde histórias de dinossauros, planetas explodindo e poderes mágicos até coisas mais realistas como transformação em leão, macaco, elefante ou outro. A clássica Chapeuzinho Vermelho já teve seu lugar e me lembro de uma semana que ela apareceu umas três vezes ao dia... e escondia sempre o menino junto com ela e com a vovozinha embaixo da casa-cobertor para fugir do lobo mal!
Menino travesso, menino pequeno, na mesa às vezes é manhã, mas com carne e arroz, brócolis e beterraba, uva e maçã, suco de laranja, ah... o suco de laranja, não precisa nem de negociação. E tem o abraço no pai, como parte fundamental e garantia nutricional.
Há tropeços e algumas lágrimas, corridas, cosquinhas, desejos e sonhos. Aprendendo a aprender, aprendo a ser gente, seu olhar ainda não distingue de onde vêm a tristeza ao olhar com a sutil realeza da inocência as imagens rápidas da mídia massiva e opressiva, no relato do terror, na França ou no Brasil, do choro e do choque de dias e dias de quem já se fez impuro. Aquilo ainda não faz sentido para ele. Espero que nunca faça. 
E mudam o canal. Pepa de novo, não! O.O Mas tudo bem, até que é educativo. Palavra Cantada e Tiquequê são a salvação. O passeio do dia seguinte se for escolha dele, não tem segredo. O zoológico é a próxima parada, porque seu bicho preferido é a cobra, a onça, o elefante, o pavão, os passarinhos, os macacos, o hipopótamo, o jacaré... enfim, todos. E assim os dias transcorrem, um pouco ao sul do Brasil, num pedaço de férias, num pedaço da vida que segue. E num simples sorriso sapeca e na frase que começa com “tia...” ali nasce toda a saudade.




quinta-feira, 9 de abril de 2015

A lista dos desejos (quereres) para o futuro

Vi hoje uma amiga postando a sua já antiga lista de desejos – tudo aquilo que queria fazer e não tinha feito nos anos passados. Agradecia a si e ao mundo por ver-se realizando alguns daqueles desejos (ou muitos  - desejo meu para ela ).
Percebi-me revisitando as listas mentais que acumulei ao longo dos anos e ainda estavam lá, em aberto, fui retirando aquilo que já tinha conseguido (trabalhar em coisas diferentes, para conhecer mais “profissões”... ninguém disse que os desejos davam bons resultados, afinal já fui call Center...). Vi a mudança de sonhos – caminhos que se abrem e se fecham e tornam a abrir. E fiz a pergunta: quais são agora os meus quereres?
Disponho aqui a minha lista ao mundo, quiçá para me convencer de que não fugirei com tantos juízes a duvidar e me desafiar – será que disso, algo você fará?
Quero: dominar o espanhol como se fora língua materna, aquela cuja fluência se inscreve até na memória, fazer aulas de samba-rock, de massoterapia. Curso básico de como fazer trufas com recheio de diversos licores, conhecer o Machu Picchu, percorrer por meses a América Latina, ver as obras da Frida Kahlo, os murais do Diego Rivera e os “quintais” da casa de Neruda. Cozinhar salmão (com alcaparras), costela, ratatouille e torta de palmito até acertar o sabor.  Orar sempre.
Quebrar menos pratos (ops!), fazer algo que ajude a humanidade, voltar as aulas de canto e um dia conseguir cantar No, Je Ne Regrette Rien da Edith Piaf, pode ser em Paris, ou não... Mas um dia, sim, conhecer essa cidade, e também Roma e as ruas de Pompéia sob o agouro do Vesúvio e também o Parthenon e as ilhas gregas.  Ver e tatear as esculturas de Michelangelo, ah... a Pietá... (e depois descobrir como sair da prisão por ter feito isso). Prestar mestrado em história, escrever um livro, olha, conseguir fazer um bolo floresta negra também. Escovar os dentes cinco vezes ao dia (isso foi cópia dos quereres dessa amiga). Meditar. Teatro. Aulas de Pandeiro. Inglês e francês. Estudar literatura, arte, música, mais história e teoria. Reverenciar ao orixás, tatuar uma mandala, enraizar. Testar sucos de clorofila diferentes, vinho nas carnes e farinhas integrais nos bolos. 

           Estes são os de curto prazo, não riam. Tem outros para anos e anos a frente de hoje e de qualquer agora. Sei que um curso de gastronomia já resolvia metade dos problemas, mas não ligo de ser aos poucos a descoberta culinária e também aos poucos tudo isso. Não me importo se os sonhos mudarem, reescrevo  os quereres e os dias. Tampouco coloquei nessa lista os tropeços, nas calçadas, nos buracos e na vida (vários), ainda quero aprender muito, preciso tropeçar, sem esquecer dos amigos-família, não sei se sempre saberei me levantar (podem me ensinar?). Ah, um último querer, amar, sempre amar.   

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

 Entre reflexos de arco-íris, o menino crescia. As bolhas gigantes de sabão voavam por segundos, mas o riso se expandia e a todos juntos ele contagia. Eu ria.
Dizia que trovava e pedalava, eu digo que sonhava e encantava.
Havia uma tal exatidão - pra não dizer que não há contradição - ele sabia fazer cálculos e programação.
Seu pensamento era diverso, pra não dizer inverso.
Se era contra a opressão, o corpo via nele espaço de libertação, aberto ao tempo e ao vento como menino-homem nos quintais do mundo.
Se procurava um caminho no pontos de uma tela, tecno-tecnológica demanda de um saber, procura/abre/busca janelas para a resistência a maré do capital, seu dilema visceral.
E essa tal tecnologia, que resolveu unir um dia o menino com uma certa guria, o que será que viria?
Dias de preguiça? Apertos, abraços, toques e bons dias?
...
Sei que disso tudo ainda não surgiu grandes rimas, mas só o momento já é poesia.
Entrepartidas

          Cada palavra cortava a carne e engasgava na boca, o choro era segurado a muito custo. Apenas a frase surgia: "esta é a última semana que fico em Londrina pelos próximos meses" já tremia a mão e o sorriso se perdia.
          Cada cidade, cada morada, cada espaço onde firmava os pés foi um pouco lar, em Londrina três residências, uma em Prudente e Tupi, sempre Tupi. Uma vez lhe perguntaram, uma loira mulher de terno olhar azul com quem morara, como se sentia em relação àquele espaço e cidade em que vivia, sabendo-me de passagem por Prudente, assim como ela também estava. Disse que... aprendi a gostar dali, só consegui ficar se soubesse que o solo era firme, para enfrentar as tempestades da vida, me permitia encontrar-me nos objetos, familiarizar-me com os traçados das ruas, os humores dos porteiros, com as escadas do condomínio e com o sol queimando dentro do apartamento. Só ficava se me permitisse criar raízes.
        E de lá um dia eu parti, com pequenas saudades e boas amizades.
        No entanto, agora era diferente, nunca partira de tal forma como agora seria.
        Todas as vezes que mudava me moviam muitos sonhos e planos, sofria de amores deixados, morria de saudades dos amigos, mas ia como o vento a toda força. Cada casa e cada cidade eu deixava para trás sem tantas tristezas; agradecia o acolhimento, a seiva farta, fortalecia-me com os amores vividos e rumava para outro destino, já não queria mais morar lá; outros eram os sentidos mesmo que planejasse voltar.
        Agora não, agora era diferente. O sentido daquela morada da minha casa-chão se perdera - mas o amor e os sonhos ainda moram lá, mesmo que esvaziados de sentido. Acho que nunca partira antes querendo tanto ficar e nunca o ficar fez menos sentido. Por isso que a voz veio embargada e fingida.          Ah, entrepartidas, minha alma está deveras perdida.