Já não recordava ao certo qual era o combinado, se era só uma resposta crônica ou uma crônica em forma de resposta.
Poderia expor qualquer sentimento, derivar o cotidiano, sintetizar a fé dos que vão por ai caminhando, falar da tristeza do Jeca, do sorriso da Monalisa, transfigurar, conservar, submeter a palavra aos devaneios da memória. Mas a menina não tinha rumo.
Estava perdida porque já não tinha a si como corpo humano, mente e intelecto, sangue, vísceras e ossos, mesmo que soubesse que não havia como se perder: aonde fosse, lá estaria.
Quando procurava um sentido, verificava o que palpitava o coração - lembrava-se de uma dor... Se fechasse os olhos os sonhos levavam aonde já não se encontrava o amor. Se pensasse o futuro aonde estava a esperança, via que a mente pregava peças com expectativas para o ontem.
O que podia guiar aquela escrita? Seria tão incerto assim o ritmo dos dias?
Começou a formular um pensamento-norte, logo alguma palavra ia ser a sua consorte, ou traduziria aquilo antes que ...; vasculhou, interrogou, perguntou nas esquinas, perguntou para as amigas, para os santos e afins, o que resumia tudo aquilo, ela precisava do dito sentido!
E foi surgindo a palavra, uma velha conhecida do mundo, parte da memória e da aurora, ela surgia nas lembranças, do que foi, do que seria e de como tudo a preenchia.
Sem distinções de classe ou de cor, ou qualquer outro contraste, pertencia aqueles onde alma constasse e as veias pulsassem...
Era ela que se apresentava na ausência, o silêncio era sua melhor forma de presença, dominava onde um dia o amor florira. Sem ser sugada pelo Tempo soberano, destitui-se de outros planos e apoderou-se da menina... Para além de qualquer temporalidade ela estava por fim definida, sua corporalidade em si reconstituída na linguagem de uma certa sinfonia.
Ela era toda... saudade.