Meu pai todo dia
cria milhares de receitas e combinações para pães integrais; as vezes uma,
duas, três vezes no mesmo dia, mas ai se uma formiga encosta nos seus
pães, lá se vai a fornada inteira para o lixo, isto, numa casa cuja cozinha
oficial (ele usa a outra na verdade) é o reino das baratinhas, aquelas bem
filhotinhas, as vezes quase inidentificáveis que somente olhares treinados como
os nossos sabem ver. Elas aparecem frequentemente naquelas horas mais carentes
e mais cansadas do dia quando um simples "paf" acorda não a casa, mas
a vizinhança inteira, afinal, é Tupi Paulista onde tudo é silêncio depois do
horário comercial e das aulas.
Já minha mãe (não
fica brava, tá?) perde uma coisa a cada dia, quando não é o pacote completo –
carteira, celular, óculos e algum tipo de carregador (pode-se incluir os pen
drives e quaisquer papéis pequenos que tocaram suas mãos) – dá pra dizer que é
um verdadeiro dom.
Tudo bem, a agenda mental dela (porque a
física ficou marcada em algum pequeno papel e... vocês já sabem, não é?) é
ultra-lotada, nunca recusa compromissos, ainda mais se for para ajudar alguém,
algo ou alguma coisa.
Eles se combinam em uma estranha
harmonia (as vezes “dês”) forjados numa época em que se ensinava com fervor até
o trecho inicial do Hino Nacional e hoje – alguns anos depois – não há
liberdade que abra as asas sobre nós, tampouco um lindo pendão da esperança que
gere paz e nem sempre vemos contente a “mãe gentil” nossa “pátria” tão
distraída!
Há um cotidiano bem pouco revolucionário,
de lutas, de conversas, de dedicação, de otimismo (mais materno), de pessimismo
(mais paterno), de piadinhas de português e até uma com Bocage, esporádicas, e
o encanto materno pelos vídeos cômicos e fofos da internet, inclusive um tal de
“puculando” que se eu fosse assistir cada vez que ela o cita ... Damos um
desconto, nós duas temos uma memória duvidosa... Mas do que eu estava falando
mesmo?
A comida nunca falta, a mesa é sempre
farta (até demais.. ai as dietas), os chocolates para os alunos foram, uma boa
parte, devorados antes, por isso a próxima mudança é usar adesivos como
presentes para os alunos.
Por hora os idiomas vários não estão sendo
treinados, mas por aqui já rodou o inglês, o espanhol, o francês, o italiano e
o alemão, no passado houve até latim (só que foi esquecido... essas coisas de línguas
mortas).
Eu mesmo, mal sei o português.
Por ai vai, todo dia chega a professora
mãe e a professora filha, esta quase a chorar porque gritou e gritou numa sala
e surpresa por ouvir um “bom te ver de novo” ou "que saudade" dos pequenos em
outra aula... e a professora mãe com aquela velha e boa energia a procurar mil
soluções na velocidade da luz. Assim , respiram, sonham e acordam para outro
amanhã, com pães, idiomas, aulas, coragem e coisas a serem perdidas.
É
isso e é lógico que várias coisas foram esquecidas, mas minha casa é assim.